canibalismo gourmet

hannibal

Não, carne humana não tem gosto de frango. Segundo o livro Jungle Ways, de 1931, do aventureiro e jornalista William Buehler Seabrook, a carne humana tem gosto de vitela. Então deve ser yummie! Meu Deus, o que estou falando?

O tema canibalismo sempre desperta a curiosidade das pessoas, talvez por isso o psiquiatra Hannibal Lecter (de O Silêncio dos Inocentes e continuações) tenha se tornado um ícone no reino dos psicopatas. Pela primeira vez, o personagem é visitado na televisão, na série Hannibal, estreia recente nos Estados Unidos e no Brasil através do AXN, ou em um torrent de preferência. A série se passa muito antes de O Silêncio dos Inocentes, quando Hannibal servia de consultor e psiquiatra do agente do FBI Will Graham (Hugh Dancy). Quem o encarna desta vez é o ator dinamarquês Mads Mikelsen (O Amante da Rainha, A Caça e Casino Royale).

Se um canibal já dá trabalho, um canibal com gostos refinados é pior ainda, que o diga a stylist de comida Janice Poon, responsável pelos pratos servidos nos jantares de Hannibal. Apesar do estrelado chef José Andrés ser o consultor da série, quem percorre os mercados de Toronto (onde a série é filmada) e passa noites fazendo testes é ela. Sua maior descoberta é que os órgãos suínos são os mais semelhantes aos dos humanos. Além de convencer na câmera que os pratos são feitos de partes humanas, Poon precisa, dependendo da cena, preparar algo que os atores possam comer.

hannibal linguashannibal gelatina

Mortadela já virou fígado, sopressata (um tipo de linguiça italiana) já foi disfarçada de pulmão e kibe virou língua. Apesar de Mads Mikelsen comer de tudo, outros atores têm limitações. Lawrence Fishburne, que faz o chefe do FBI Jack Crawford, não come nozes, beringela, kiwi nem foie gras. Poon só descobriu que ele (e a mulher, a atriz Gina Torres, também no elenco) não come foie gras depois de encomendar quase tês quilos para uma cena. A solução foi fazer um falso foie gras, modificando uma receita de tamale. Acabou que o episódio não foi ao ar nos Estados Unidos, em respeito às vítimas do atentado em Boston.

Poon acredita que sua ascendência chinesa lhe dá a vantagem de estar familarizada com miúdos e outras partes não muito populares. Sua maior dificuldade nem é transformar uma receita em algo que lembra um órgão humano, mas nas inúmeras mudanças de roteiro que a obrigam a mudar seus planejamentos. Por exemplo, no quinto episódio, um jantar entre três personagens com línguas de cordeiro como prato principal mudou cinco vezes! A última alteração dizia que, durante a sobremesa, gelatina de vinho tinto com uvas e rosas cristalizadas, “Hannibal pega uma uva Norton e a descasca”. A uva Norton, uma espécie que é toda vermelha por dentro, já estava em falta no maior produtor. Na Austrália, ela ainda estava verde (Poon tentou com um cunhado que mora lá). Faltando um dia para a gravação, sem saber o que fazer, Poon comprou uvas vermelhas e as descascou. Tingiu-as de vermelho e depois passou numa cera, maquiando-as com sombra. Para ter outra alternativa, ela pintou as uvas com esmalte. No final, a uva com casca de cera foi a escolhida. Deu tudo certo! As fotos abaixam mostram como o planejamento muda entre uma revisão de roteiro e outra. Repare como o medalhão de língua em crosta de sal virou línguas embrulhadas como origami. E a sobremesa era pudim com berries.hannibal jantar rascunhohannibal jantar rascunho 2

Toda a aventura de Poon nos bastidores da série está sendo contada em seu blog Feeding Hannibal. Além dos incontáveis desafios, há receitas para brincar na cozinha. Vai uma coxinha?

cozinha básica – equipamentos

cozinhaUma amiga que não sabe nem fazer miojo me perguntou se eu a ensinaria cozinhar caso ela precisasse. Eu, obviamente, disse que sim, que seria um prazer. Em seguida eu ri e ela disse que era sério. “Uma preocupação a menos”. Pois bem, este não é um post sobre o básico de se cozinhar, mas sobre o básico do que ter na cozinha. Acho engraçado quando pessoas que mal sabem ferver água montam uma cozinha com inúmeros apetrechos inúteis, mas lindos. Para se cozinhar, não é preciso muito, acredite!

Facas. Jamais compre aqueles kits de três ou cinco facas, pois você terá apenas duas alegrias com elas – o dia em que abrir, e o dia em que as jogar fora. Acredite, você não precisa de uma faca para isso, outra para aquilo e mais outra para não sei o quê. Tudo bem, você pode ter depois, mas como isso é sobre o básico, tenha apenas uma boa faca, nem precisa ser de chef, uma boa faca multiuso ou utilitária vale mais que cinco porcarias. Uma faca deve ter um peso confortável para sua mão. As japonesas e alemãs são as melhores e você encontra uma por 35-40 reais. As de cerâmica também são boas e não precisam ser amoladas, só atente para ver se são realmente de cerâmica. Lembre-se que uma faca cega é mais perigosa que uma afiada. Tenha também uma faca menor para legumes e frutas.

Tábua de corte ou apoio de corte. É um problema sério, pois muita gente não tem o costume de usar. Para mim, é tão fundamental quanto a faca. A de vidro pode ser linda para exibir, mas é terrível de se trabalhar. Há a tradicional de madeira e a moderna de polietileno. A Anvisa proibiu a de madeira em restaurantes (embora muitos ainda usem) por conta do acúmulo de bactérias, mas testes já mostraram que, na superfície, há mais bactérias no polietileno que na madeira. De qualquer forma, compre uma boa tábua, de pelo menos 35 cm de comprimento e um pouquinho de altura.

Panelas e frigideiras. Você pode comprar um jogo, mas fique bem atento quanto a qualidade. Seja lá qual for o modelo, material ou tamanho, a panela tem que ter certo peso (mas confortável para você), pois se ela for muito leve, vai ficar dançando na boca do fogão. O mesmo pode-se dizer da frigideira. Se ela for de teflon, veja a qualidade do teflon (é o mesmo caso das facas de kits). Caso você queira comprar separadamente, sugiro uma panela pequena (cerca de 20 cm) e outra grande (40cm).

Colher de pau, pão duro, espátula, pinça, ralador, concha e peneira. Até hoje nada substituiu a boa e velha colher de pau. A Anvisa não gosta nada de madeira na cozinha, mas a cozinha é sua. O pão duro faz jus ao nome, é uma espátula com ponta de silicone que raspa a panela e não deixa nem um grama de comida. Também serve para mexer o alimento (é preciso ver até que temperatura o material suporta), mas a colher de pau ainda é melhor. A espátula, claro, tem sua função óbvia. Já a pinça é multiuso, serve para virar o bife, fritar alguma coisa ou pegar o macarrão. Uma coisa que eu aprendi é que não é preciso gastar muito com essas coisas. A pinça que uso, por exemplo, comprei por 11 reais e o melhor pão duro que tive custou 6 reais.

Descascador de legumes. É uma mão na roda. Há dois tipos de descascadores, com lâmina horizontal ou vertical. Qual é a melhor? Depende de cada um. Particularmente, prefiro a de lâmina horizontal, acho que é mais fácil, mas talvez seja porque eu sempre usei este tipo de descascador. Não gaste muito dinheiro em um, mas também não vá comprar um porcaria que é vendida dentro do ônibus.

Medidores. Eles são úteis principalmente na confeitaria, quando as medidas precisam ser exatas. Um jogo de xícaras (1/4, 1/3, ½ e 1), um de colheres e uma balança de cozinha podem ser fundamentais para o sucesso de uma receita.

1 xícara = 240 ml (na verdade verdadeira, 237ml)

1 colher de sopa = 15 ml

1 colher de chá = 5 ml

1 copo americano = 250 ml.

Medidas equivalentes você encontra aqui.

Panela de pressão. Essa é básica apenas para quem faz feijão diariamente ou com frequência. Muita gente morre de medo de usar uma. É verdade que antigamente havia relatos de explosões e outros acidentes, mas hoje ela é bem segura. A dica é usá-la como diz o manual: verifique se a(s) válvula(s) está(ão) limpa(s), não exceda o nível máximo (está marcado na parte interna), só abra a tampa depois de tirar toda a pressão e veja os tipos de alimento que não podem ser cozidos na panela.

Liquidificador, batedeira, processador. Como a panela de pressão, depende do seu estilo. Eu, por exemplo, raramente uso o liquidificador e processador. Há várias opções no mercado, desde processadores que combinam as funções de liquidificador e batedeira até simples mixers e os miniprocessadores, que podem te ajudar bastante!

jamie oliver para todos

jamie oliver 15 minutesMais de 50 horas de programas de Jamie Oliver foram vendidos para a Globosat (leia-se GNT) e Fox Life, que devem estrear ao longo do ano. Os programas são: Jamie’s 15 Minute Meals (2012), Jamie Cooks Summer (2011), Jamie’s Christmas with Bells On (2011), Jamie’s Great Festival (2012) e Jamie’s Great Britain (2011).

O fim de 2012 e o início de 2013 teve grandes estreias no incrível e gigantesco reino dos programas gastronômicos. Na Inglaterra, Jamie Oliver e o melhor amigo Jimmy Doherty (O Laboratório Gastronômico de Jimmy) estrearam Jamie & Jimmy’s Food Fight Club. Nos Estados Unidos, Nigella,  Anthony Bourdain, Ludo Lefebvre e Brian Malarkey lançaram o The Taste, o “The Voice gastronômico”, com Nigella e Bourdain também trabalhando como produtores.

Jamie & Jimmy’s Food Fight Club é uma série em quatro episódios para o Channel 4 sobre como a cozinha britânica melhorou nos últimos anos. Na verdade, é uma “competição” de produtos ingleses contra produtos do resto do mundo. A crítica não foi positiva, disse que é uma série mais sobre a amizade de Jamie e Jimmy do que qualquer outra coisa. E quando a crítica fala da amizade, quer dizer que são longos momentos dos dois falando sobre Chewbacca, ordenhando uma cabra na cara do outro ou momentos constrangedores como uma volta de montanha-russa. O The Guardian o classificou como “o programa culinário menos inteligente que se tem notícia”. O The Taste também não recebeu críticas muito positivas. Os dois programas não têm previsão de estreia no Brasil.

a origem dos pratos

Acho que a maioria das pessoas não faz ideia do que está comendo, são iguais ao Pacman e correm de boca aberta. Se você der sushi de uva, ela vai comer e achar que está comendo um legítimo sushi. Se você der um croissant de leite condensado e M&Ms, ela vai dizer que um simples croissant é sem graça e para fracos. É verdade que não há regras na cozinha, mas também é importate, assim como se faz ao ler um livro ou ver um filme, entender a origem e o contexto do que se come. Abaixo, algumas curiosidade de pratos do nosso cotidiano.

Torta Holandesa. Esta bendita torta não nasceu na Holanda e nem foi criada por um holandês. Sua cidade natal é Campinas, São Paulo. Quem a criou foi Sílvia Leite, que tinha um café na cidade, em 1991, e a batizou assim em homeagem ao tempo em que viveu na Europa.

Pão Francês. Eu acho que o mundo seria muito triste sem o pão francês, que não é francês, é brasileiro. No início do século passado, alguns brasileiros abastados viajavam à Europa (leia-se França) para estudar ou simplesmente dar uma volta. Lá, eles comiam um pão muito diferente do que existia aqui. Quando voltavam, pediam aos cozinheiros que reproduzissem este pão. Foi aí que nasceu o nosso pão francês, que se diferencia por levar açúcar e gordura.

Hambúrguer. Este é outro que tem a nacionalidade trocada. Não nasceu nos Estados Unidos e nem era feito de presunto. O hambúrguer foi criado na Alemanha, na cidade de Hamburgo. Acredita-se que o hambúrguer era uma técnica de preservação de carne desenvolvida por tribos nômades da Ásia Ocidental, ainda no século XVII. A carne era picada, temperada e consumida crua. Quando os marinheiros alemães que faziam rota no mar Báltico descobriram a técnica, apenas adicionaram o fogo. Rapidamente o hambúrguer virou um prato típico e só chegou aos Estados Unidos no século XIX, com os imigrantes alemães. Em terras estadunidenses, ficou conhecido como “hamburg style steak” (bife à moda hamburguesa) e a única contribuição americana foi o pão. Outra possível origem do hambúrguer remota ao século XIII, quando caveleiros tártaros moiam pedaços de carne dura, colocavam debaixo da sela e depois de um dia de cavalgada, conseguiam uma massa de carne macia.

Ketchup. O banal molho ketchup, quem diria, nasceu na China em 1690! Na verdade, ele não tinha nada a ver com o ketchup que conhecemos hoje, basicamente, só o nome que ficou. Ele era um molho de mesa, uma mistura de peixe curtido com sal, molho de soja, vinagre e outros temperos que se chamava “kê-chiap”. Esse molho foi para outros lugares da Ásia e, claro, sofreu variações. No século XVIII, os exploradores britânicos descobriram o molho na Malásia, onde era conhecido como “kĕchap”, e para virar ketchup foi um pulo. A receita mudou muito, mas só ganhou a base de tomate em 1801, quando teve a receita publicada no American Cookbook, The Sugar House Book. Esta receita era absuradamente salgada (o sal era usado como conservante) e muitos americanos acreditavam que o tomate era uma fruta venenosa. Com o passar dos anos, a receita foi ficando mais adocicada e as pessoas perderam o medo de comer tomate (na verdade, ainda não comiam ele cru).

Maionese. Se falei de ketchup, nada mais justo que falar de maionese. Há várias versões da história, mas a mais aceita é a de 1756, quando Armand de Vignerot du Plessis derrotou os britânicos e tomou posse do porto de Mahon, Espanha. Nessa cidade havia um molho típico chamado “mahonesa” (espanhol) ou “maonesa” (catalão), que ao ser levado à França, virou “mayonnaise”. Uma outra versão diz que um cozinheiro da tropa francesa, proibido de usar fogo para não chamar atenção das tropas britânicas, fez um molho com o que tinha: ovos, sal, vinagre e azeite, e depois o batizou em homenagem à cidade.

Estrogonofe. Uma coisa é certa, o estrogonofe que a gente come não tem nada a ver com o legítimo russo. Já a origem do nome é uma briga, com muitos querendo ser o pai da criança. O que se sabe é que soldados russos levavam carne cortada em pedaços dentro de barris, imersos em sal e aguardente. Coube a um cozinheiro refinar o uso dessa carne. Quem foi este cozinheiro, ninguém tem certeza, mas provavelmente trabalhava para alguma família Stroganov (a influente e importante família Stroganov, o Conde Pavel Stroganov ou o ministro Alexander Grigorievich Stroganoff). A primeira receita conhecida, datada de 1861, se chamava “Estrogonofe de carne com mostarda”, que era carne (em cubos) salteada com molho de mostarda e caldo de legumes, servida com creme azedo. Numa outra receita, de 1912, foram acrescidos extrato de tomate e cebolas, acompanhado de palitos de batata crocante – algo típico da Rússia. Após a queda do Império Russo, o estrogonofe se tornou popular nos restaurantes e hotéis chineses até o início da Segunda Guerra, quando imigrantes e trabalhadores americanos levaram diferentes versões para os Estados Unidos. Na França, o estrogonofe ganhou os cogumelos e por um tempo foi considerado um prato sofisticado.

Brigadeiro. Para terminar, o melhor dos doces brasileiros: o brigadeiro. Ninguém sabe quem, onde e quando o brigadeiro foi inventado. Muitos acreditam na história das campanhas presidencias do brigadeiro Eduardo Gomes, em 1946 e 1950, mas mesmo esta história tem muitos fios soltos. O que se sabe é que no Rio Grande do Sul, o brigadeiro é conhecido como negruinho, mas sua origem também é desconhecida. Há vários livros e cadernos com a receita do brigadeiro, mas a falta de data neles não responde nem se já existia brigadeiro antes do Eduardo Gosmes se tornar brigadeiro. A única coisa certa é que já existia leite condensado no Brasil no século IXX. Já que não há acordo sobre a origem, ficamos com a história do brigadeiro Eduardo Gomes que é mais interessante.

Há divergências sobre a associação do doce ao candidato, e também do local. O candidato e brigadeiro Eduardo Gomes era um homem alto, bonito, de olhos claros e solteiro, o que atraiu de imediato o apoio feminino. Alguns dizem que o doce começou a circular em São Paulo, no bairro do Pacaembú, durante festas promovidas pelo partido da União Democrática Nacional. Já outros afirmam que foram as senhoras cariocas que começaram a fazer brigadeiros para arrecadar dinheiro para a campanha. E mais alguns ainda dizem que não foi nem no Rio, nem em São Paulo, mas em algum lugar de Minas Gerais. Um outro boato, que ficou mais popular nos anos 70 e 80, é que Eduardo Gomes teria sido ferido nos testículos durante uma revolta no Forte de Copacabana em 1922, e “brigadeiro é um doce que não leva ovos”, diziam as más línguas.

curiosidade: Nos anos 20, o leite condensado da Nestlé era importado e se chamava Milkmaid, era para ser bebido diluído em água. Por causa do rótulo, que tinha a famosa mulher, começou a ser chamado de “leite da moça”. Nos anos 30, com a fabricação no Brasil, a Nestlé rebatizou como “leite condensado marca moça”, e posteriormente virou leite moça.

menu de ouro

Eu se fosse artista, ficaria mais animado de ir ao Globo de Ouro e SAG que ao Oscar. Ora, nestas duas premiações, eles servem jantar e bebida, ninguém passa fome como no Oscar, que quando acaba, faz formar uma fila gigantesca na lanchonete vizinha ao Kodak Theather. Como hoje é dia de Globo de Ouro, nada melhor que ver as estrelas vão comer!

O menu é do chef Suki Sugiura, com sobremesas do pâtissier Thomas Henzi.

Entrada: Alcachofra grelhada com mousse de erva doce, tomate e limão, mini tart de tomate seco e abóbora japonesa, queijo de cabra ao mel e uma saladinha de endívias com pêra. A ideia foi usar ingredientes do inverno californiano.entrada globo de ouro 2013

Prato principal: filé de carne defumado com mini pimentões doces e badejo caramelizado com molho de erva doce e hortelã.prato principal

Sobremesa: Mousse de cappuccino.sobremesa

Durante toda a noite, será servido Moët et Chandon safra 2004, trazido diretamente da França. No tapete vermelho, mini Moëts com canudinho dourado (!). Que absurdo!

As receitas você encontra aqui (em inglês).

O Globo de Ouro será transmitido ao vivo no TNT, a partir das 22h (tapete vermelho) e 23h (cerimônia).

minha cozinha é arqueológica

Parece até filme do Woody Allen, mas saiu na National Geographic. No vilarejo de Chajul, na Guatemala, um homem começou a reformar a sua cozinha. Ao tirar a camada de gesso da parede, encontrou um mural maia! Pinturas que não viam a luz do sol há séculos e séculos. Pelas primeiras análises, e apesar de o mural estar bastante danificado, as pinturas parecem ser autênticas. O interessante é que elas misturam elementos maias e espanhóis. Segundo o arqueólogo  Jarosław Źrałka, que foi até a cozinha em Chajul, algumas figuras parecem segurar corações humanos. Imagina descobrir que sua cozinha é um sítio arqueológico! Mas não deve ser nada legal ir pegar um copo d’água no meio da noite e dar de cara com uma figura carregando um coração. Por enquanto, quem fez o mural e o que ele significa é um grande mistério!

o melhor bolo de chocolate do mundo

Este bolo pode salvar vidas! É sério! Se você quiser fazer as pazes com alguém, ofereça este bolo, é mais que garantido que você receberá um baita sorriso de agradecimento! E o melhor, é tão fácil que chega a ser ridículo!

A receita veio do Simplesmente Delícia, da Flavia Pantoja, e estava com todos os superlativos pessoais. Já o fiz tantas vezes que nem preciso de receita, então não sei se ele sofreu alguma mutação na minha cozinha (lost in translation) ou está tintim por tintim como no blog dela. De qualquer forma, a receita funciona. E muito bem!

Só mais uma coisa: Eu fiz disfarçado de muffin (na verdade, era pra parecer um cupcake), mas você pode fazer em forma retangular (40×25 cm, aproximadamente) ou redonda (27 cm, aproximadamente). O importante é deixar pelo menos um dedo até a borda.

Bolo de Chocolate  (xícara = 240 ml)

13/4 xícara de farinha de trigo; 2 xícaras de açúcar refinado; 3/4 xícara de cacau em pó; 11/2 colher (chá) de fermento em pó; 11/2 colher (chá) de bicarbonato de sódio; 1 pitada de sal; 2 ovos; 1 colher (sopa) de essência de baunilha; 1/2 xícara de óleo (canola, girassol, algodão ou milho); 1 xícara de leite; 1 xícara de água quente.

Peneire a farinha, o cacau, o fermento e o bicarbonato. Adicione o açúcar e o sal, esta mistura vai parecer um achocolatado. Adicione os ovos, o óleo, o leite e a essência. Misture com uma colher/pão-duro antes de bater, apenas para que os ingredientes secos não formem uma nuvem. Bata em velocidade mínima até que a massa fique homogênea (pare um pouco e raspe as laterais para ter certeza de que tudo foi incorporado). Adicione a água quente. A massa vai ficar bem líquida! Não se preocupe, parece que não vai dar certo, mas vai. Despeje na forma untada e leve ao forno preaquecido (180º C) por 25-30 minutos.

E a cobertura? Pois bem, eu usei ganache (chocolate, creme de leite – o de caixinha mesmo – e um pouco de whisky). É só derreter o chocolate no microondas (180 g.), misturar o creme de leite (90 g.) e o whisky. Mas você pode usar a cobertura de sua preferência. Se quiser algumas sugestões, entre no ICKFD! Lá você aprende a derreter chocolate e outras mil dicas.

os macarons da paradis

Já estou ficando expert em macarons. Não, ainda não consegui fazer um, minha especialidade é provar mesmo. Vejo a aparência, se tem “pezinho”, o cheiro, o recheio, a textura… E com muita alegria fui experimentar os macarons da Paradis, uma doceria que está cada vez mais badalada no Rio. Graças ao bom Deus, o chef pâtissier Pierre Cornet -Vernet não abriu sua loja em um bairro de fino trato como o Leblon ou Ipanema, mas na rua mais movimentada da popular Copacabana, o que lhe permitiu reduzir os custos e cobrar um preço justo por seus doces (a caixa com 9 macarons sai por R$ 29,00). O ambiente da loja destoa do barulho e caos exterior, tudo é muito elegante e comportado, o serviço também é eficiente e educado (é estranho falar que um serviço é educado), mas e os macarons?

Pois bem, o de pistache foi o melhor de pistache que já comi. Melhor que da Ladurée, Pierre Hermé e que do Flavio Federico (não querendo desmerecer nenhuma das casas, por favor!). Ele tinha textura perfeita: casquinha crocante, aquele leve aerado da primeira mordida, macio por dentro, úmido e um recheio preciso. Mas o principal, ele tinha real sabor de pistache. É fantástico quando você come um macaron e sente o gosto prometido. O mesmo aconteceu com o de morango, blueberry (mirtilo), menta e limão siciliano. Devo retornar lá para provar o de manga, graviola e o de rosas – adoraria que tivesse de lavanda, talvez o meu preferido. Minha única crítica é quanto o capricho na montagem. Alguns macarons estavam casados tortamente, meio desencontrados. É claro que isso não altera o sabor, mas quando tudo está nos conformes, estes pequenos detalhes fazem diferença.

A Paradis vende também chocolates e sorvetes. Sem querer forçar a barra, é um paraíso perdido no vai e vem de Copacabana.

Paradis. Av. Nossa Senhora de Copacabana, 776.

refeição literária

A designer Dinah Fried pegou cinco livros populares e extraiu deles refeições que ela retratou de forma minimalista e elegante. Pobre Oliver!

O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

“Depois de deixar minhas malas num armário da estação, entrei num barzinho e tomei café. Para mim foi um vastíssimo café – suco de laranja, bacon e ovos, torrada e café. Em geral, fico só no suco de laranja. Como muito pouco. Verdade mesmo. É por isso que sou tão esquelético. Eu devia fazer uma espécie de super-alimentação, para aumentar o peso e tudo, mas nunca fiz. Quando estou fora de casa, geralmente só como sanduíches de queijo e leite maltado. Não é muita coisa, mas o leite maltado tem um monte de vitaminas. H. V. Caulfield. Holden Vitamina Caulfield.”

Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll

“’E desde então’, continuou o Chapeleiro num tom
pesaroso, ‘ele não faz nada do que eu peço! São sempre seis
horas!’
‘É, é isso mesmo’, disse a Lebre de Março com um
suspiro, ‘é sempre hora do chá, e nós não temos tempo de lavar
a louça nos intervalos.’
‘É por isso que vocês ficam girando em torno da mesa?’
disse Alice.
‘Exatamente’, disse o Chapeleiro, ‘conforme as louças vão
ficando sujas.’
‘Mas o que acontece quando vocês retornam para o
começo?’ Alice ousou perguntar.”

Oliver Twist – Charles Dickens

“O lugar onde as crianças comiam era uma grande sala, com chão de tijolo, tendo ao fundo uma grande caldeira onde o cozinheiro do asilo, de avental à cintura e ajudado por duas mulheres, tirava o mingau nas horas de refeição.
Cada criança recebia uma tigelinha cheia e nada mais, exceto nos dias de festa, em que se lhes dava mais duas onças e um quarto de pão. As tigelas nunca precisavam ser lavadas; os pequenos, com as suas colheres, deixavam-nas completamente limpas e lustrosas; e quando acabavam esta operação, que não durava muito, porque as colheres eram quase do tamanho das tigelas, ficavam contemplando a caldeira com olhos tão ávidos que pareciam devorá-la e lambiam os dedos para não perderem algum resto do mingau que lhes ficasse.”

Moby Dick – Herman Melville

“No entanto, um vapor quente e saboroso vindo da cozinha serviu para desmentir a perspectiva aparentemente triste diante de nós. Mas quando essa sopa entrou, o mistério foi deliciosamente explicado. Oh, queridos amigos! Ouvi-me. Era feita de pequenos moluscos suculentos, pouco maiores que avelãs trituradas, misturadas com farelo de biscoito, carne de porco salgada e cortada em pequenos pedaços, engrossada com manteiga, e abundantemente temperada com sal e pimenta.”

*a tradução é minha, logo… refere-se a trecho do capítulo 15: chowder.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres – Stieg Larsson

“Lisbeth Salander desconectou-se da internet e fechou seu Powerbook. Estava sem  trabalho e com fome. A primeira coisa não a perturbava diretamente desde que retomara o controle de sua conta bancária e que o dr. Bjurman adquirira o caráter de um vago estorvo do passado. A fome ela remediou indo até a cozinha e ligando a cafeteira. Preparou três grossos sanduíches com queijo, atum e ovo cozido, sua primeira refeição depois de muitas horas. Devorou os sanduíches noturnos encolhida no sofá da sala e ao mesmo tempo concentrada na informação que acabava de obter.”

“Quando a tevê anunciou a morte de Wennerström, ela abandonou a reportagem pela metade. Foi preparar um café e um sanduíche de patê de fígado com pepinos em conserva.”

panna cotta com geleia

Quando eu ouvi o nome pela primeira vez, pensei se tratar de uma sobremesa complicadíssima, cheia de etapas, tempos e minúcias. Nada disso. Panna Cotta parece simples e fazer é mais simples ainda. E se sua companhia nunca experimentou, ainda dá para tirar onda com o nome. Ninguém sabe ao certo a origem desse doce, um primo do nosso pudim de leite, mas todos apontam seu nascimento no norte da Itália, uma região montanhosa famosa por seu leite rico em gordura. E panna cotta é isso, a soma de leite, creme, gelatina (dizem que tiravam da espinha do peixe) e açúcar. Um pudim opaco, bem branquinho, imaculado. Literalmente, significa creme cozido e seu sabor é indescritível, surpreendentemente complexo.

A panna cotta que fiz foi uma escolha acertada, queria algo cremoso, mas com leveza, nada de chocolate, e que fosse muito fácil de fazer. Há um pequeno twist que você pode pular sem problemas: usei suco de laranja para hidratar a gelatina e aromatizei o creme com as raspas da casca da laranja e um pedaço de gengibre. Este twist deu um leve perfume de laranja, mas se você não quiser, hidrate a gelatina com água gelada e use extrato/essência de baunilha no creme. Só isso!

Panna Cotta

Eu não medi o rendimento desta receita, mas dá, mais ou menos, oito copinhos de 100 ml.

5 folhas de gelatina (ou 8 g. de gelatina sem sabor); 500 ml de leite integral; 250 ml de creme de leite fresco; 4 colheres (sopa) de açúcar (é bom experimentar antes, se não for do seu gosto, acrescente mais); raspas de 1 laranja; 2 cm de gengibre (bem pouquinho).

Hidrate a gelatina no suco da laranja ou em água gelada (conforme o fabricante indica), reserve. Numa panelinha, junte o leite e o creme, acrescente o gengibre e as raspas. Leve ao fogo até quase ferver, passe por uma peneira para tirar as raspas e o gengibre. Acrescente o açúcar e a gelatina.  Misture e deixe efriar um pouco. Distribua em copos, copinhos, forminas ou formão e leve à geladeira até firmar.

Servi a panna cotta com duas geleias, de frutas vermelhas e de laranja kinkan, diluídas com um pouco de água. Você pode usar um coulis de fruta, caramelo, chocolate, compota ou até um vinho. Particularmente, prefiro sabores menos doces e que façam um contraste com o doce do creme, então recomendo maracujá, morango, damasco, ameixa… o que der na telha.

PS: A foto acima não é minha – a que tirei ficou ruim demais para ser publicada – mas a panna cotta ficou bem parecida.

PS2: Se preferir a panna cotta mais molinha, dimunua um pouco a quantidade de gelatina.

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