Arquivo mensal: abril 2011

o que foi servido no casamento real?

Depois da cerimônia de casamento na Abadia de Westminster, a rainha Elizabeth II, impecavelmente trabalhada em amarelo, ofereceu um almoço para cerca de 650 pessoas no Palácio de Buckignham. Mas o que estas pessoas comeram? Ou melhor, o que é servido numa recepção royal? Uma seleção de canapés, mas a realeza é tão real como nós: nada de 650 garçons servindo individualmente cada convidado, mas um buffet, cada um se servindo e seja o que Deus quiser! Mas ao som da harpista Claire Jones, porque eles são chics!

Nota-se o cuidado na escolha de pratos e ingredientes típicos da Inglaterra.

– Blini de limão com salada de caranguejo e milho

– Terrina de Pato com chutney de frutas

– Rocambole de queijo de cabra com nozes caramelizadas

– Sortimento de palmiers e palitinhos de queijo

– Rosa de salmão defumado escocês sobre blini de beterraba

– Mini torta de agrião com aspargo

– Aspargo ao molho hollandaise

– Ovo de codorna com sal de salsinha (sal temperado com semente de salsinha triturada)

– Lagostim escocês com maionese de limão e confit de barriga de porco com lagostim e torresmo

– Folhado de cogumelo selvagem com aipo

– Bubble and Squeak (típico bolinho inglês feito de batata, repolho e outros legumes como cenoura, couve de bruxelas etc) com confit de paleta de cordeiro

– Chipolata (tipo de linguiça de porco) com molho de grãos de mostarda com mel

– Torta de hadoque defumado com guacamole de ervilha

– Mini pudim de Yorkshire com rosbife e mousse de raiz-forte

– Torta Ópera

– “Gelatina” de laranja sanguínea (blood orange)

– Financier (bolinho) de framboesa

– Tartlet (tortinha) de crème brulee de ruibarbo

– Praline de maracujá

– Praline de chocolate ao leite com castanhas

– Trufa com ganache de chocolate branco

– Trufa com ganache de chocolate amargo

Champagne: Pol Roger NV Brut Réserve

Bolo de frutas e bolo de chocolate (pedido do príncipe William). O de chocolate foi feito pela Mcvitie’s Cake Company.

Todo o almoço foi comandado pelo chef real Mark Flanagan e mais 21 chefs.

que comam croissants!

Historiadores dizem que Maria Antonieta nunca disse tal coisa ao ser alertada que o povo não tinha pão para comer. Aliás, muita história atribuida a ela também é fantasiosa. No filme de Sofia Coppola, Maria Antonieta está sempre rodeada de macarons, as mais finas patisseries e muito champagne, porém, na vida real, a jovem rainha só comia frango cozido ou assado e croissants, bebia água e café, como escreveu sua dama de companhia Madame Campan.

Maria Antonieta foi enviada à França aos 14 anos para se casar com Luis Augusto, futuro Luis XVI, parar encerrar de vez as oscilações na relação entre os dois países. Os rígidos protocolos de Versalhes (tão diferente de sua Viena), a pouca idade, a falta de interesse de Luís e a pressão de gerar um herdeiro eram uma constante preocupação para Maria Antonieta. Para ela, fazer as refeições em público – o povo se arrumava só para entrar no palácio e ver o casal almoçar ou jantar – era tão desagradável que nem tirava as luvas, muito menos beliscava uma uva, o que reforçava sua imagem de antipática. Chamavam-na de “A Austríaca”.

E onde o croissant entra na história? Sentindo-se deslocada e com saudade de Viena, Maria Antonieta comia croissant, ou viennoiserie, como era chamado, uma invenção austríaca e que ela introduziu na França. Era seu confort food.

Uma das origens do croissant remota ao ano de 1683, quando os otomanos tentaram um ataque durante a madrugada em Viena. Os padeiros, trabalhadores da madrugada, ouviram os soldados otomanos e deram o sinal de alerta, evitando o ataque. Para comemorar, fizeram um folhado em forma de lua crescente (daí o nome), que remete à lua presente na bandeira do Império Otomano. A outra história diz que um vienense morador de Constantinopla abriu um café e servia a bebida com o croissant, mas esta versão não tem graça.

slow é mais, fast é menos

Quanto tempo você gasta por dia comendo? Os franceses passam, em média, é claro, duas horas e quinze minutos por dia comendo. Vendo um programa de Jamie Oliver visitando os Pireneus, a cordilheira entre França e Espanha, descobri que por lá, é costume fechar o comércio por duas horas para o almoço, mais ou menos como a siesta espanhola. Também é costume fazer compras em feiras de pequenos produtores da região – legumes, verduras, frutas, cogumelos, carnes, queijos e embutidos. E a melhor coisa: todo mundo é saudável, mesmo comendo manteiga, creme de leite e queijos gordos. O que os habitantes destas cidades fazem é algo que ganha cada vez mais adeptos ao redor do mundo, um movimento chamado Slow Food.

O Slow Food não é simplesmente comer uma boa refeição tranquilamente, mas um manifesto contra o chamado fast life, este corre-corre diário padronizado e industrializado. O lema é fazer as pessoas desenvolverem uma relação com o que comem, ou melhor, ter mais consciência do que comem e uma melhor relação entre as pessoas. Quantas família fazem alguma refeição juntas hoje em dia?

O movimento acredita na tríplice “bom, limpo e justo”: o alimento deve ser bom, gostoso, mas tendo boa procedência, ou seja, cultivado de forma limpa, sem prejuízos à natureza, ao homem e animais, e quem produz deve receber um preço justo por seu trabalho. Aí entra outra questão. O pequeno produtor.

Vá ao supermercado e compre um pé de alface. Depois, vá comprar uma alface de um produtor orgânico que comercializa as próprias verduras. Se você não conseguir diferenciar o sabor, corte a língua e entre para a fila de transplante! Tá certo que a alface do pequeno produtor é mais cara, mas os benefícios vão além do sabor. Produzindo menos, ele tem mais controle e não precisa de adubo químico nem de agrotóxicos – bom para a sua saúde, bom para o produtor e bom para o meio ambiente. Além disso, esta preocupação estimula a culinária regional, sempre perigando virar qualquer coisa com salsinha picada ao redor.

O movimento Slow Food nasceu na Itália, em 1986, quando o McDonalds inaugurou um restaurante em Roma. Os italianos fizeram barulho e o jornalista Carlo Petrini criou o movimento, realmente um manifesto contra a padronização e industrialização do sabor.

Em poucas palavras, Slow Food é transformar alimentos cultivados e criados de forma justa e limpa em pratos saborosos para serem degustados numa mesa com pessoas que se gosta. Simples, não? O “come devagar, garoto” sempre fez muito sentido!

Para mais informações, entre no site do Slow Food Brasil.

de respeito e personalidade

Uma das palavras mais irritantes que as pessoas repetem hoje em dia é “atitude”. Imediatamente me vem em mente um professor de aeróbica e seu short de lycra gritando “quero ver atitude, vamos lá, é 1, é 2, é 3”! Agora, para estes chocolates, a palavra “atitude” não me irrita nem um pouco. A criação é de Henrik Konnerup em parceria com o escritório dinamarquês Bessermachen Design Studio. 12 mil quadradinhos de chocolate artesanal, cada um com 50 gramas e embalado individualmente de acordo com sua caixa-mãe. No total foram produzidas 1000 caixas grandes com 12 quadradinhos. Dá até pena de comer!

coelhinho da páscoa, o que trazes pra mim?

Já passei da idade de ganhar ovo de páscoa, na verdade, nunca gostei muito. Lembro que minha mãe dava um para mim e outro para minha irmã. Claro que era uma alegria abrir e começar a comer, mas a gente comia alguns pedaços e o que sobrava ia para o esquecimento na geladeira, ao lado do coelho decapitado e o papai noel decepado. Particularmente, também não gosto de dar ovos, prefiro um bombom ou um chocolate mais especial, lindamente embalado. No final, dá o mesmo preço, só que, obviamente, a quantidade é menor.

O ovo de páscoa vem de muito antes do tempo de Jesus. Tribos pagãs celebravam a deusa da primavera Eostre no final de março, depois que saíam de um tenebroso inverno – até hoje os eurpeus comemoram a chegada da primavera como um renascimento, ficam mais bem humorados e dispostos. Acredita-se que o nome Eostre virou easter (inglês) e ostern (alemão), que significam Páscoa. Os Judeus também já comemoravam a Páscoa, mas para lembrar o fim da escravidão no Egito. Para os cristãos, a palavra Páscoa vem do hebraico Pessach, que significa passagem, ou o renascimento de Cristo. Cristãos e Judeus comemoravam a Páscoa no mesmo dia, até que o imperador romano Constantino resolveu mudar as coisas, mas basta ler O Código Da Vinci para saber o resto.

O ovo em si veio muito depois. Em muitas culturas, o ovo era um alimento quase sagrado. Chineses, gregos, persas, egípcios e romanos pintavam e trocavam ovos cozidos ou ocos na chegada da primavera. Acredita-se que este costume foi levado para o ocidente por missionários e cruzados.  Mas os de chocolate surgiram só depois que os espanhóis conheceram o chocolate com os maias e difundiram pela Europa, um luxo dos luxos, ovos de galinha ocos e recheados. Mas e o coelho? Bom, o coelho também tem origem com a deusa Eostre.

A deusa da primavera era retratada segurando um ovo e observando uma lebre saltitante – mulher + ovo + coelho = fertilidade. Em algumas versões, a lebre era um pássaro, e mesmo depois da transformação, fazia ninho e colocava ovos. Numa transformação à la telefone sem fio, a lebre virou coelho, mas em alguns países, quem faz este papel são cotovias, cegonhas e galos. No Brasil, estes costumes vieram com os imigrantes.

todo mundo come

O ser humano é sexo e estômago, mas como bem explicou Câmara Cascudo em A História da Alimentação Brasileira, o homem é mais estômago que sexo. Primeiro, porque ele precisa ser alimentado nas primeiras 24 horas de vida, enquanto o despertar sexual só surge na adolescência, e segundo, porque o homem precisa comer diariamente para sobreviver e pode levar uma vida celibatária sem problemas. Daí vem a pergunta: comer para viver ou viver para comer? Ou as duas coisas?

A nossa relação com a comida não é meramente nutricional: a cultura, religião geografia, história, tudo isso influencia nossa alimentação. Logo, falar sobre alimentação também é falar de história e gente, e é exatamente isso que quero discutir atravez deste blog.

O Brasil é um excelente exemplo. Os europeus usavam especiarias para conservar carnes e outros alimentos, ou disfarçar o cheiro de podre, mas quando os turcos invadiram Constantinopla e bloquearam a passagem por continente, a saída foi se aventurar no mar e contornar a África, rota descoberta por Vasco da Gama. Nesse momento entra Pedro Álvares Cabral e seus 13 navios. Alguns dizem que ele chegou nas terras daqui por acidente, outros dizem que foi intencional, pois vários navegadores já haviam avistado o Brasil e o rei Manuel I mandou Cabral tomar posse de vez. Como foi de fato, ninguém tem certeza, mas é mais interessante acreditar que, no fundo, o Brasil foi “descoberto” por causa de especiarias.

No final da história, Cabral voltou para Portugal com um punhado de pimentinha, foi chamado de fracassado e depois esquecido, assim como o Brasil ficou por um século. Botânicos dizem que o Brasil também tinha suas ervas e especiarias, que foram tão exploradas e usadas, mas não cultivadas, que foram extintas.

E é assim que o mundo gira, porque todo mundo come. Na Índia não comem carne bovina, mas comem tudo com curry. Na China, come-se tudo que tem quatro pés, menos cadeira e mesa. Por trás de cada costume, prato e ingrediente, há uma história. E esta história fica mais interessante ainda quando se sabe que grande parte dos pratos que comemos hoje surgiram de erros e improvisos.

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