Arquivo mensal: junho 2012

expectativa / realidade

Conheço uma pessoa que um dia passou pelo Spoleto e viu o anúncio de um ravióli de chocolate, lindo! Louca de vontade, ela enfrentou uma fila gigantesca e quando chegou no balcão, a decepção foi maior que ser barrado na Disney. Há um precipício entre o que aparece na propaganda e a realidade, levando isso em conta, e de forma bem legal, o McDonald’s do Canadá respondeu por que o sanduíche da vida real nem de longe lembra o da foto.

O vídeo salienta que o sanduíche para a foto usa os mesmos ingredientes do da lanchonete, a diferença é que eles tentam mostrar todos os componentes. O picles fica bem visível, a cebola dá altura, o queijo é levemente derretido com secador de cabelo e adiciona-se gotas estratégicas de catchup e mostarda. E claro, depois, o Photoshop entra em ação para ajustar luz, cores e corrigir imperfeições.

 

porco mau ou nossas impurezas

“Uma terra onde corre leite e mel”. Essa é a descrição da Terra prometida aos hebreus, mas que se interpretada ao pé da letra, é a fábrica de chocolates do Willy Wonka. Segundo a Bíblia, depois da saída do Egito, os hebreus erraram por 40 anos no Sinai, na aridez do deserto, então a Terra prometida era o antideserto, um lugar onde a água era abundante, que irrigava os pastos para os animais, e estes forneciam leite aos homens. E com pastos verdes e vivos, flores eram visitadas por abelhas que fabricavam mel aos homens. Para um povo nômade como os hebreus, o leite era seu alimento básico e o mel era o açúcar, o que tornava a vida mais doce, menos difícil.

É interessante como a Bíblia e outros livros sagrados ora são interpretados literalmente, totalmente ao pé da letra, e, em outros momentos, têm uma leitura bem flexível. O mesmo acontece com as regras de alimentação segundo os livros sagrados. Por que a carne de porco é proibida mas o caranguejo é liberado, se ambos fogem das regras anunciadas por Moisés? Na Bíblia, a regra é clara, o híbrido é impuro. E vem tudo do Gêneses. Se Deus separou a luz das trevas e o céu do mar, então cada animal deve se locomover e viver no ambiente ao qual foi designado. Os animais do mar devem ter escamas e barbatanas para nadar, os terrestres devem ter patas para andar e as aves devem voar. Logo, siris, camarões, lagostas e semelhantes são impuros porque não têm escamas nem barbatanas, e o caranguejo ainda caminha na terra! Os avestruzes, os cisnes e marrecos também são impuros, pois são aves, mas passam a maior parte do tempo na terra e na água. Os répteis rastejantes nem pensar! São malditos desde que a cobra conduziu o homem à desobediência: “Porque fizestes isso, és maldita entre todos os animais e todas as feras selvagens! Caminharás sobre o teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida”. Os que têm patas e mesmo assim rastejam a barriga também são considerados impuros, como ratos, lagartos, tartarugas e tatus.

O híbrido é realmente proibido na Bíblia. Qualquer misturinha ou invasão de categoria é considerado impuro. ”Não cozirás o cabrito no leite de sua mãe”. Ou seja, é quase um incesto. Quem come um alimento impuro está ingerindo o Mal, o não natural. Mas por que o porco ainda é visto como o mais impuro das carnes de corte e outros animais também considerados impuros são consumidos hoje me dia? Bom, para dizer a verdade, não há uma explicação totalmente satisfatória, mas a questão é que o porco foi se tornando o vilão ao longo dos séculos, justamente por causa da passagem que diz que os animais de terra devem ter o “casco fendido, partido em duas unhas” e ruminar. O porco tem o casco fendido, mas não rumina, tem dieta onívora (só por ser duas coisas já o tornaria impuro), e os animais puros são exclusivamente herbívoros. “A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra, a tudo que é animado de vida, eu dou como alimento toda a relva verde”. Mas por que destacar o formato de casco?

Os hebreus não conheciam todos os animais, principalmente os selvagens, e é difícil observar a ruminação de longe (a lebre é erradamente classificada como ruminante), então o jeito foi observar os animais mais próximos deles. Chegaram a conclusão de que um animal sem garras é impossibilitado de agarrar sua presa, logo… É interessante que todas estas regras alimentares estão baseadas no Gênesis, e a ideia de pureza se aplica em outros aspectos. Por exemplo, uma lavoura não pode ter mais de uma cultura, uma roupa não pode ter dois tipos de tecido, um hebreu não pode ser casar com alguém não hebreu etc.

Passados séculos e séculos, hoje, muitos judeus comem animais “impuros” e até carne de porco. Cristãos de todo o mundo vestem roupas de algodão com poliéster, casam-se com pessoas de outra religião e não fazem mais oferendas nem sacrifícios a Deus. Se nos tornamos mais flexíveis quanto a vários pontos da Bíblia, por que somos arbitrários e usamos a Bíblia para condenar os outros?

razzle dazzle

Acho a gastronomia molecular fascinante. São diferentes texturas que não seriam possíveis com técnicas de preparo tradicionais. É química! O glossário deste ramo da gastronomia chega a ser intimidador: gelificantes, emulsificantes, esferificação… mas tudo isso está se tornando cada vez mais popular e acessível ao pobre e curioso cozinheiro. Basta pesquisar para encontrar diversas receitas com todos os passos bem explicadinhos. O difícil mesmo é encontrar ingredientes e aditivos como alginato de sódio ou gluconato de cálcio. E quando você encontra, a quantidade mínima de compra é industrial. Pensando nisso, o chef Kaká Silva criou o Gastronomy Lab, que funciona não só como uma loja especializada, mas também como um banco de receitas e discusão. Vale dar uma conferida.

Para mais receitas, entre no Molecular Recipes.

%d blogueiros gostam disto: