Arquivo mensal: julho 2012

os macarons da paradis

Já estou ficando expert em macarons. Não, ainda não consegui fazer um, minha especialidade é provar mesmo. Vejo a aparência, se tem “pezinho”, o cheiro, o recheio, a textura… E com muita alegria fui experimentar os macarons da Paradis, uma doceria que está cada vez mais badalada no Rio. Graças ao bom Deus, o chef pâtissier Pierre Cornet -Vernet não abriu sua loja em um bairro de fino trato como o Leblon ou Ipanema, mas na rua mais movimentada da popular Copacabana, o que lhe permitiu reduzir os custos e cobrar um preço justo por seus doces (a caixa com 9 macarons sai por R$ 29,00). O ambiente da loja destoa do barulho e caos exterior, tudo é muito elegante e comportado, o serviço também é eficiente e educado (é estranho falar que um serviço é educado), mas e os macarons?

Pois bem, o de pistache foi o melhor de pistache que já comi. Melhor que da Ladurée, Pierre Hermé e que do Flavio Federico (não querendo desmerecer nenhuma das casas, por favor!). Ele tinha textura perfeita: casquinha crocante, aquele leve aerado da primeira mordida, macio por dentro, úmido e um recheio preciso. Mas o principal, ele tinha real sabor de pistache. É fantástico quando você come um macaron e sente o gosto prometido. O mesmo aconteceu com o de morango, blueberry (mirtilo), menta e limão siciliano. Devo retornar lá para provar o de manga, graviola e o de rosas – adoraria que tivesse de lavanda, talvez o meu preferido. Minha única crítica é quanto o capricho na montagem. Alguns macarons estavam casados tortamente, meio desencontrados. É claro que isso não altera o sabor, mas quando tudo está nos conformes, estes pequenos detalhes fazem diferença.

A Paradis vende também chocolates e sorvetes. Sem querer forçar a barra, é um paraíso perdido no vai e vem de Copacabana.

Paradis. Av. Nossa Senhora de Copacabana, 776.

refeição literária

A designer Dinah Fried pegou cinco livros populares e extraiu deles refeições que ela retratou de forma minimalista e elegante. Pobre Oliver!

O Apanhador no Campo de Centeio – J. D. Salinger

“Depois de deixar minhas malas num armário da estação, entrei num barzinho e tomei café. Para mim foi um vastíssimo café – suco de laranja, bacon e ovos, torrada e café. Em geral, fico só no suco de laranja. Como muito pouco. Verdade mesmo. É por isso que sou tão esquelético. Eu devia fazer uma espécie de super-alimentação, para aumentar o peso e tudo, mas nunca fiz. Quando estou fora de casa, geralmente só como sanduíches de queijo e leite maltado. Não é muita coisa, mas o leite maltado tem um monte de vitaminas. H. V. Caulfield. Holden Vitamina Caulfield.”

Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll

“’E desde então’, continuou o Chapeleiro num tom
pesaroso, ‘ele não faz nada do que eu peço! São sempre seis
horas!’
‘É, é isso mesmo’, disse a Lebre de Março com um
suspiro, ‘é sempre hora do chá, e nós não temos tempo de lavar
a louça nos intervalos.’
‘É por isso que vocês ficam girando em torno da mesa?’
disse Alice.
‘Exatamente’, disse o Chapeleiro, ‘conforme as louças vão
ficando sujas.’
‘Mas o que acontece quando vocês retornam para o
começo?’ Alice ousou perguntar.”

Oliver Twist – Charles Dickens

“O lugar onde as crianças comiam era uma grande sala, com chão de tijolo, tendo ao fundo uma grande caldeira onde o cozinheiro do asilo, de avental à cintura e ajudado por duas mulheres, tirava o mingau nas horas de refeição.
Cada criança recebia uma tigelinha cheia e nada mais, exceto nos dias de festa, em que se lhes dava mais duas onças e um quarto de pão. As tigelas nunca precisavam ser lavadas; os pequenos, com as suas colheres, deixavam-nas completamente limpas e lustrosas; e quando acabavam esta operação, que não durava muito, porque as colheres eram quase do tamanho das tigelas, ficavam contemplando a caldeira com olhos tão ávidos que pareciam devorá-la e lambiam os dedos para não perderem algum resto do mingau que lhes ficasse.”

Moby Dick – Herman Melville

“No entanto, um vapor quente e saboroso vindo da cozinha serviu para desmentir a perspectiva aparentemente triste diante de nós. Mas quando essa sopa entrou, o mistério foi deliciosamente explicado. Oh, queridos amigos! Ouvi-me. Era feita de pequenos moluscos suculentos, pouco maiores que avelãs trituradas, misturadas com farelo de biscoito, carne de porco salgada e cortada em pequenos pedaços, engrossada com manteiga, e abundantemente temperada com sal e pimenta.”

*a tradução é minha, logo… refere-se a trecho do capítulo 15: chowder.

Os Homens que Não Amavam as Mulheres – Stieg Larsson

“Lisbeth Salander desconectou-se da internet e fechou seu Powerbook. Estava sem  trabalho e com fome. A primeira coisa não a perturbava diretamente desde que retomara o controle de sua conta bancária e que o dr. Bjurman adquirira o caráter de um vago estorvo do passado. A fome ela remediou indo até a cozinha e ligando a cafeteira. Preparou três grossos sanduíches com queijo, atum e ovo cozido, sua primeira refeição depois de muitas horas. Devorou os sanduíches noturnos encolhida no sofá da sala e ao mesmo tempo concentrada na informação que acabava de obter.”

“Quando a tevê anunciou a morte de Wennerström, ela abandonou a reportagem pela metade. Foi preparar um café e um sanduíche de patê de fígado com pepinos em conserva.”

panna cotta com geleia

Quando eu ouvi o nome pela primeira vez, pensei se tratar de uma sobremesa complicadíssima, cheia de etapas, tempos e minúcias. Nada disso. Panna Cotta parece simples e fazer é mais simples ainda. E se sua companhia nunca experimentou, ainda dá para tirar onda com o nome. Ninguém sabe ao certo a origem desse doce, um primo do nosso pudim de leite, mas todos apontam seu nascimento no norte da Itália, uma região montanhosa famosa por seu leite rico em gordura. E panna cotta é isso, a soma de leite, creme, gelatina (dizem que tiravam da espinha do peixe) e açúcar. Um pudim opaco, bem branquinho, imaculado. Literalmente, significa creme cozido e seu sabor é indescritível, surpreendentemente complexo.

A panna cotta que fiz foi uma escolha acertada, queria algo cremoso, mas com leveza, nada de chocolate, e que fosse muito fácil de fazer. Há um pequeno twist que você pode pular sem problemas: usei suco de laranja para hidratar a gelatina e aromatizei o creme com as raspas da casca da laranja e um pedaço de gengibre. Este twist deu um leve perfume de laranja, mas se você não quiser, hidrate a gelatina com água gelada e use extrato/essência de baunilha no creme. Só isso!

Panna Cotta

Eu não medi o rendimento desta receita, mas dá, mais ou menos, oito copinhos de 100 ml.

5 folhas de gelatina (ou 8 g. de gelatina sem sabor); 500 ml de leite integral; 250 ml de creme de leite fresco; 4 colheres (sopa) de açúcar (é bom experimentar antes, se não for do seu gosto, acrescente mais); raspas de 1 laranja; 2 cm de gengibre (bem pouquinho).

Hidrate a gelatina no suco da laranja ou em água gelada (conforme o fabricante indica), reserve. Numa panelinha, junte o leite e o creme, acrescente o gengibre e as raspas. Leve ao fogo até quase ferver, passe por uma peneira para tirar as raspas e o gengibre. Acrescente o açúcar e a gelatina.  Misture e deixe efriar um pouco. Distribua em copos, copinhos, forminas ou formão e leve à geladeira até firmar.

Servi a panna cotta com duas geleias, de frutas vermelhas e de laranja kinkan, diluídas com um pouco de água. Você pode usar um coulis de fruta, caramelo, chocolate, compota ou até um vinho. Particularmente, prefiro sabores menos doces e que façam um contraste com o doce do creme, então recomendo maracujá, morango, damasco, ameixa… o que der na telha.

PS: A foto acima não é minha – a que tirei ficou ruim demais para ser publicada – mas a panna cotta ficou bem parecida.

PS2: Se preferir a panna cotta mais molinha, dimunua um pouco a quantidade de gelatina.

%d blogueiros gostam disto: