Arquivo da categoria: sociedade

porco mau ou nossas impurezas

“Uma terra onde corre leite e mel”. Essa é a descrição da Terra prometida aos hebreus, mas que se interpretada ao pé da letra, é a fábrica de chocolates do Willy Wonka. Segundo a Bíblia, depois da saída do Egito, os hebreus erraram por 40 anos no Sinai, na aridez do deserto, então a Terra prometida era o antideserto, um lugar onde a água era abundante, que irrigava os pastos para os animais, e estes forneciam leite aos homens. E com pastos verdes e vivos, flores eram visitadas por abelhas que fabricavam mel aos homens. Para um povo nômade como os hebreus, o leite era seu alimento básico e o mel era o açúcar, o que tornava a vida mais doce, menos difícil.

É interessante como a Bíblia e outros livros sagrados ora são interpretados literalmente, totalmente ao pé da letra, e, em outros momentos, têm uma leitura bem flexível. O mesmo acontece com as regras de alimentação segundo os livros sagrados. Por que a carne de porco é proibida mas o caranguejo é liberado, se ambos fogem das regras anunciadas por Moisés? Na Bíblia, a regra é clara, o híbrido é impuro. E vem tudo do Gêneses. Se Deus separou a luz das trevas e o céu do mar, então cada animal deve se locomover e viver no ambiente ao qual foi designado. Os animais do mar devem ter escamas e barbatanas para nadar, os terrestres devem ter patas para andar e as aves devem voar. Logo, siris, camarões, lagostas e semelhantes são impuros porque não têm escamas nem barbatanas, e o caranguejo ainda caminha na terra! Os avestruzes, os cisnes e marrecos também são impuros, pois são aves, mas passam a maior parte do tempo na terra e na água. Os répteis rastejantes nem pensar! São malditos desde que a cobra conduziu o homem à desobediência: “Porque fizestes isso, és maldita entre todos os animais e todas as feras selvagens! Caminharás sobre o teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida”. Os que têm patas e mesmo assim rastejam a barriga também são considerados impuros, como ratos, lagartos, tartarugas e tatus.

O híbrido é realmente proibido na Bíblia. Qualquer misturinha ou invasão de categoria é considerado impuro. ”Não cozirás o cabrito no leite de sua mãe”. Ou seja, é quase um incesto. Quem come um alimento impuro está ingerindo o Mal, o não natural. Mas por que o porco ainda é visto como o mais impuro das carnes de corte e outros animais também considerados impuros são consumidos hoje me dia? Bom, para dizer a verdade, não há uma explicação totalmente satisfatória, mas a questão é que o porco foi se tornando o vilão ao longo dos séculos, justamente por causa da passagem que diz que os animais de terra devem ter o “casco fendido, partido em duas unhas” e ruminar. O porco tem o casco fendido, mas não rumina, tem dieta onívora (só por ser duas coisas já o tornaria impuro), e os animais puros são exclusivamente herbívoros. “A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra, a tudo que é animado de vida, eu dou como alimento toda a relva verde”. Mas por que destacar o formato de casco?

Os hebreus não conheciam todos os animais, principalmente os selvagens, e é difícil observar a ruminação de longe (a lebre é erradamente classificada como ruminante), então o jeito foi observar os animais mais próximos deles. Chegaram a conclusão de que um animal sem garras é impossibilitado de agarrar sua presa, logo… É interessante que todas estas regras alimentares estão baseadas no Gênesis, e a ideia de pureza se aplica em outros aspectos. Por exemplo, uma lavoura não pode ter mais de uma cultura, uma roupa não pode ter dois tipos de tecido, um hebreu não pode ser casar com alguém não hebreu etc.

Passados séculos e séculos, hoje, muitos judeus comem animais “impuros” e até carne de porco. Cristãos de todo o mundo vestem roupas de algodão com poliéster, casam-se com pessoas de outra religião e não fazem mais oferendas nem sacrifícios a Deus. Se nos tornamos mais flexíveis quanto a vários pontos da Bíblia, por que somos arbitrários e usamos a Bíblia para condenar os outros?

Anúncios

a importância do 4º lugar

O restaurante D.O.M., do chef Alex Atala foi eleito o quarto melhor do mundo pela World’s 50 Best Restaurants de 2012, lista promovida pela revista Restaurant . Viva! É motivo para festejar. Mas  o que tudo isso significa? O próprio Atala disse em entrevista que a repercussão internacional sobre ele e seu restaurante traz mais visibilidade à gastronomia brasileira e permite que outros cozinheiros também brilhem. Boa resposta, mas o curto tempo de televisão não o permitiu se aprofundar.

Basta navegar pelo site do D.O.M. para entender a resposta, mas Alex é um profundo incentivador da preservação da identidade gastronômica regional, principalmente da do Norte do Brasil. Não à toa, o fettuccine de pupunha é um dos seus pratos mais característicos. Sem contar o uso de ingredientes típicos como o jambu e o tucupi. No ano passado, Alex quase foi um dos integrantes da mesa redonda que discutiu o uso de ingredientes regionais, como eles podem ter a qualidade melhorada e a possível perda da tal indentidade regional, durante o 9º Ver-o-Peso da Cozinha Paraense. Quase, porque ele não chegou a tempo em Belém. A edição 2011 foi uma homenagem ao chef Paulo Martins, falecido no ano anterior, criador do festival e o maior divulgador da cozinha amazônica. Na mesma época, Alex escreveu sobre a criação de pirarucus em São Paulo e como ela pode beneficiar os rios amazônicos e sua população ribeirinha.

A mesa redonda acabou não discutindo tudo que estava no roteiro, mas foi frisada a importância da tecnologia e de investimentos na melhora da produção/extração e conservação dos tais ingredientes. Mas o ponto alto foi o reconhecimento do trabalho das boieiras, as cozinheiras do mercado, que sabem, melhor que ninguém, como trabalhar com ervas, peixes, raízes e frutos que só existem por lá. É delas o papel de contadoras de história, de preservar parte da cultura do Norte.

Resumidamente, a cultura do paladar é um hábito, e hábitos mudam, pois a sociedade muda. A globalização, sempre ela, tem massificado, padronizado o que consumimos e, consequentemente, o que comemos. Este assunto é desenvolvido muito melhor neste artigo, vale ler. De repente, damos mais valor ao tradicionalíssimo coq au vin e esnobamos a galinhada. E é aí que entra Alex Atala novamente. A sua preocupação com a valorização e preservação da cozinha brasileira é indiscutível, mas nem todos sabem disto. O resultado do D.O.M. na lista de melhores coincidiu com o Chefs na Rua, que fez parte da Virada Cultural de São Paulo. Resultado: cinco mil pessoas disputando 500 porções da galinhada do Alex Atala, que faz parte do menu do “irmão” do D.O.M., o Dalva e Dito. É claro que houve muita reclamação e até vaia, mas aposto que muita gente se perguntou por que um dos maiores chefs da atualidade fez galinhada.

> Mais sobre Alex Atala

Livros:

Com Unhas, Dentes e Cuca: Prática Culinária e Papo-cabeça ao Alcance de Todos Alex Atala e Carlos Alberto Dória / Ed. Senac, 2008

Escoffianas Brasileiras Alex Atala, Carolina Chagas / Ed. Larousse Brasil, 2008

Por uma Gastronomia Brasileira Alex Atala / Ed. Bei, 2003

Televisão:

Mesa pra Dois GNT, 2004/2005

abra a geladeira que te direis quem és

Tem gente que lê o outro pelo sapato, pela roupa, pelo que coloca no carrinho do supermercado, pelo pão que compra na padaria, pela música que ouve, pelo que lê… Mas nada é mais íntimo que a geladeira. Pela geladeira se sabe como a pessoa. O fotógrafo Mark Menjivar cruzou os Estados Unidos e abriu a geladeira de várias pessoas, de diferentes classes sociais, profissões e estilos de vida. Sua intenção é que a gente tenha um diálogo melhor com a comida, como por exemplo, saber sua origem, saber como a comida é produzida e cultivada e lidar diretamente com o produtor. Nesse projeto específico chamado You Are What You Eat (você é o que come), ele convida as pessoas a pensar sobre como a gente cuida das coisas. “Como nós cuidamos dos nossos corpos. Como nós cuidamos dos outros. Como nós cuidamos da terra”.

Uma vez, o Carlinhos Brown falou uma coisa muito interessante. Sua infância foi muito pobre, mas nunca passou fome e nunca se sentiu miserável porque sempre tinha um pé de mamão no quintal, um pé de goiaba no vizinho… Foi só quando a família comprou a primeira geladeira é que ele entendeu o que era pobreza, pois abria a porta e via as prateleiras vazias.

> que bizarro ter uma cobra no congelador! >via Hypeness

filé de brontossauro

O homem nunca conviveu com dinossauros, isso só aconteceu nos episódios do Flintstones, da Família Dinossauro, do Elo Perdido, nos filmes do Parque dos Dinossauros… enfim, só na ficção. Mas o Homem das Cavernas caçou animais tão grandes quanto, como o mamute. O interessante, é que o Homem das Cavernas como imaginamos só entrou para o nosso imaginário depois de um salto evolutivo, e tem a ver com alimentação.

Sabe-se muito e, ao mesmo tempo, muito pouco sobre nossos antepassados de milhões de anos. O esqueleto bípede mais antigo que se tem notícia tem de 3,8 a 4 milhões de anos e foi justamente neste estágio da evolução, talvez um pouco mais a frente, que o homem, os famosos australopiteco e Homo habilis, na áfrica oriental começaram a caçar. Isso, há cerca de 2,5 a 1,5 milhão de anos. Até então, a alimentação era exclusivamente vegetariana e o australopiteco foi obrigado a encontrar outras fontes de alimento depois de migrar para áreas onde a quantidade de alimento vegetariano era menor. Se ele se tornou bípede, isso facilitou a caça, porém ele realmente caçava ou aproveitava os restos deixados por animais? A resposta ninguém sabe ao certo, mas pelo que tudo indica, as duas coisas. Caçar exigia muito do homem, além de arriscado. Um mamute, ou um mesmo um animal de porte menor, podia matar com um só movimento. E o homem, mesmo evoluído, ainda era bem primitivo. Então o homem aproveitava restos, mas quando a coisa apertava, o jeito era enfrentar o bicho.

Como disse no outro parágrafo, muito se sabe e também pouco se sabe. São teorias que fazem sentido, mas qualquer descoberta, estudo ou análise pode alterar tudo. No último sábado, foi noticiado a descoberta de fósseis na Ucrânia mostra que o Homo sapiens era uma criatura vaidosa e canibal. Além de adornos feitos de ossos e presas, havia um crânio rachado exatamente como eles rachavam os crânios de animais para a retirada do miolo. Tal prática devia ter uma conotação “religiosa”, como a de tribos que comem partes de adversários mortos para mostrar coragem e poder. Por enquanto, é apenas uma suposição. Mas o que isso tem a ver com a História da Alimentação? Bom, se a carne tem papel de destaque hoje – vamos lembrar que em quase todas as culturas, a carne sempre foi a estrela em cerimônias, festas e oferendas -, é importante saber quando, como e por que o homem se tornou onívoro. E não pense que paramos de evoluir!

slow é mais, fast é menos

Quanto tempo você gasta por dia comendo? Os franceses passam, em média, é claro, duas horas e quinze minutos por dia comendo. Vendo um programa de Jamie Oliver visitando os Pireneus, a cordilheira entre França e Espanha, descobri que por lá, é costume fechar o comércio por duas horas para o almoço, mais ou menos como a siesta espanhola. Também é costume fazer compras em feiras de pequenos produtores da região – legumes, verduras, frutas, cogumelos, carnes, queijos e embutidos. E a melhor coisa: todo mundo é saudável, mesmo comendo manteiga, creme de leite e queijos gordos. O que os habitantes destas cidades fazem é algo que ganha cada vez mais adeptos ao redor do mundo, um movimento chamado Slow Food.

O Slow Food não é simplesmente comer uma boa refeição tranquilamente, mas um manifesto contra o chamado fast life, este corre-corre diário padronizado e industrializado. O lema é fazer as pessoas desenvolverem uma relação com o que comem, ou melhor, ter mais consciência do que comem e uma melhor relação entre as pessoas. Quantas família fazem alguma refeição juntas hoje em dia?

O movimento acredita na tríplice “bom, limpo e justo”: o alimento deve ser bom, gostoso, mas tendo boa procedência, ou seja, cultivado de forma limpa, sem prejuízos à natureza, ao homem e animais, e quem produz deve receber um preço justo por seu trabalho. Aí entra outra questão. O pequeno produtor.

Vá ao supermercado e compre um pé de alface. Depois, vá comprar uma alface de um produtor orgânico que comercializa as próprias verduras. Se você não conseguir diferenciar o sabor, corte a língua e entre para a fila de transplante! Tá certo que a alface do pequeno produtor é mais cara, mas os benefícios vão além do sabor. Produzindo menos, ele tem mais controle e não precisa de adubo químico nem de agrotóxicos – bom para a sua saúde, bom para o produtor e bom para o meio ambiente. Além disso, esta preocupação estimula a culinária regional, sempre perigando virar qualquer coisa com salsinha picada ao redor.

O movimento Slow Food nasceu na Itália, em 1986, quando o McDonalds inaugurou um restaurante em Roma. Os italianos fizeram barulho e o jornalista Carlo Petrini criou o movimento, realmente um manifesto contra a padronização e industrialização do sabor.

Em poucas palavras, Slow Food é transformar alimentos cultivados e criados de forma justa e limpa em pratos saborosos para serem degustados numa mesa com pessoas que se gosta. Simples, não? O “come devagar, garoto” sempre fez muito sentido!

Para mais informações, entre no site do Slow Food Brasil.

todo mundo come

O ser humano é sexo e estômago, mas como bem explicou Câmara Cascudo em A História da Alimentação Brasileira, o homem é mais estômago que sexo. Primeiro, porque ele precisa ser alimentado nas primeiras 24 horas de vida, enquanto o despertar sexual só surge na adolescência, e segundo, porque o homem precisa comer diariamente para sobreviver e pode levar uma vida celibatária sem problemas. Daí vem a pergunta: comer para viver ou viver para comer? Ou as duas coisas?

A nossa relação com a comida não é meramente nutricional: a cultura, religião geografia, história, tudo isso influencia nossa alimentação. Logo, falar sobre alimentação também é falar de história e gente, e é exatamente isso que quero discutir atravez deste blog.

O Brasil é um excelente exemplo. Os europeus usavam especiarias para conservar carnes e outros alimentos, ou disfarçar o cheiro de podre, mas quando os turcos invadiram Constantinopla e bloquearam a passagem por continente, a saída foi se aventurar no mar e contornar a África, rota descoberta por Vasco da Gama. Nesse momento entra Pedro Álvares Cabral e seus 13 navios. Alguns dizem que ele chegou nas terras daqui por acidente, outros dizem que foi intencional, pois vários navegadores já haviam avistado o Brasil e o rei Manuel I mandou Cabral tomar posse de vez. Como foi de fato, ninguém tem certeza, mas é mais interessante acreditar que, no fundo, o Brasil foi “descoberto” por causa de especiarias.

No final da história, Cabral voltou para Portugal com um punhado de pimentinha, foi chamado de fracassado e depois esquecido, assim como o Brasil ficou por um século. Botânicos dizem que o Brasil também tinha suas ervas e especiarias, que foram tão exploradas e usadas, mas não cultivadas, que foram extintas.

E é assim que o mundo gira, porque todo mundo come. Na Índia não comem carne bovina, mas comem tudo com curry. Na China, come-se tudo que tem quatro pés, menos cadeira e mesa. Por trás de cada costume, prato e ingrediente, há uma história. E esta história fica mais interessante ainda quando se sabe que grande parte dos pratos que comemos hoje surgiram de erros e improvisos.

%d blogueiros gostam disto: