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a origem dos pratos

Acho que a maioria das pessoas não faz ideia do que está comendo, são iguais ao Pacman e correm de boca aberta. Se você der sushi de uva, ela vai comer e achar que está comendo um legítimo sushi. Se você der um croissant de leite condensado e M&Ms, ela vai dizer que um simples croissant é sem graça e para fracos. É verdade que não há regras na cozinha, mas também é importate, assim como se faz ao ler um livro ou ver um filme, entender a origem e o contexto do que se come. Abaixo, algumas curiosidade de pratos do nosso cotidiano.

Torta Holandesa. Esta bendita torta não nasceu na Holanda e nem foi criada por um holandês. Sua cidade natal é Campinas, São Paulo. Quem a criou foi Sílvia Leite, que tinha um café na cidade, em 1991, e a batizou assim em homeagem ao tempo em que viveu na Europa.

Pão Francês. Eu acho que o mundo seria muito triste sem o pão francês, que não é francês, é brasileiro. No início do século passado, alguns brasileiros abastados viajavam à Europa (leia-se França) para estudar ou simplesmente dar uma volta. Lá, eles comiam um pão muito diferente do que existia aqui. Quando voltavam, pediam aos cozinheiros que reproduzissem este pão. Foi aí que nasceu o nosso pão francês, que se diferencia por levar açúcar e gordura.

Hambúrguer. Este é outro que tem a nacionalidade trocada. Não nasceu nos Estados Unidos e nem era feito de presunto. O hambúrguer foi criado na Alemanha, na cidade de Hamburgo. Acredita-se que o hambúrguer era uma técnica de preservação de carne desenvolvida por tribos nômades da Ásia Ocidental, ainda no século XVII. A carne era picada, temperada e consumida crua. Quando os marinheiros alemães que faziam rota no mar Báltico descobriram a técnica, apenas adicionaram o fogo. Rapidamente o hambúrguer virou um prato típico e só chegou aos Estados Unidos no século XIX, com os imigrantes alemães. Em terras estadunidenses, ficou conhecido como “hamburg style steak” (bife à moda hamburguesa) e a única contribuição americana foi o pão. Outra possível origem do hambúrguer remota ao século XIII, quando caveleiros tártaros moiam pedaços de carne dura, colocavam debaixo da sela e depois de um dia de cavalgada, conseguiam uma massa de carne macia.

Ketchup. O banal molho ketchup, quem diria, nasceu na China em 1690! Na verdade, ele não tinha nada a ver com o ketchup que conhecemos hoje, basicamente, só o nome que ficou. Ele era um molho de mesa, uma mistura de peixe curtido com sal, molho de soja, vinagre e outros temperos que se chamava “kê-chiap”. Esse molho foi para outros lugares da Ásia e, claro, sofreu variações. No século XVIII, os exploradores britânicos descobriram o molho na Malásia, onde era conhecido como “kĕchap”, e para virar ketchup foi um pulo. A receita mudou muito, mas só ganhou a base de tomate em 1801, quando teve a receita publicada no American Cookbook, The Sugar House Book. Esta receita era absuradamente salgada (o sal era usado como conservante) e muitos americanos acreditavam que o tomate era uma fruta venenosa. Com o passar dos anos, a receita foi ficando mais adocicada e as pessoas perderam o medo de comer tomate (na verdade, ainda não comiam ele cru).

Maionese. Se falei de ketchup, nada mais justo que falar de maionese. Há várias versões da história, mas a mais aceita é a de 1756, quando Armand de Vignerot du Plessis derrotou os britânicos e tomou posse do porto de Mahon, Espanha. Nessa cidade havia um molho típico chamado “mahonesa” (espanhol) ou “maonesa” (catalão), que ao ser levado à França, virou “mayonnaise”. Uma outra versão diz que um cozinheiro da tropa francesa, proibido de usar fogo para não chamar atenção das tropas britânicas, fez um molho com o que tinha: ovos, sal, vinagre e azeite, e depois o batizou em homenagem à cidade.

Estrogonofe. Uma coisa é certa, o estrogonofe que a gente come não tem nada a ver com o legítimo russo. Já a origem do nome é uma briga, com muitos querendo ser o pai da criança. O que se sabe é que soldados russos levavam carne cortada em pedaços dentro de barris, imersos em sal e aguardente. Coube a um cozinheiro refinar o uso dessa carne. Quem foi este cozinheiro, ninguém tem certeza, mas provavelmente trabalhava para alguma família Stroganov (a influente e importante família Stroganov, o Conde Pavel Stroganov ou o ministro Alexander Grigorievich Stroganoff). A primeira receita conhecida, datada de 1861, se chamava “Estrogonofe de carne com mostarda”, que era carne (em cubos) salteada com molho de mostarda e caldo de legumes, servida com creme azedo. Numa outra receita, de 1912, foram acrescidos extrato de tomate e cebolas, acompanhado de palitos de batata crocante – algo típico da Rússia. Após a queda do Império Russo, o estrogonofe se tornou popular nos restaurantes e hotéis chineses até o início da Segunda Guerra, quando imigrantes e trabalhadores americanos levaram diferentes versões para os Estados Unidos. Na França, o estrogonofe ganhou os cogumelos e por um tempo foi considerado um prato sofisticado.

Brigadeiro. Para terminar, o melhor dos doces brasileiros: o brigadeiro. Ninguém sabe quem, onde e quando o brigadeiro foi inventado. Muitos acreditam na história das campanhas presidencias do brigadeiro Eduardo Gomes, em 1946 e 1950, mas mesmo esta história tem muitos fios soltos. O que se sabe é que no Rio Grande do Sul, o brigadeiro é conhecido como negruinho, mas sua origem também é desconhecida. Há vários livros e cadernos com a receita do brigadeiro, mas a falta de data neles não responde nem se já existia brigadeiro antes do Eduardo Gosmes se tornar brigadeiro. A única coisa certa é que já existia leite condensado no Brasil no século IXX. Já que não há acordo sobre a origem, ficamos com a história do brigadeiro Eduardo Gomes que é mais interessante.

Há divergências sobre a associação do doce ao candidato, e também do local. O candidato e brigadeiro Eduardo Gomes era um homem alto, bonito, de olhos claros e solteiro, o que atraiu de imediato o apoio feminino. Alguns dizem que o doce começou a circular em São Paulo, no bairro do Pacaembú, durante festas promovidas pelo partido da União Democrática Nacional. Já outros afirmam que foram as senhoras cariocas que começaram a fazer brigadeiros para arrecadar dinheiro para a campanha. E mais alguns ainda dizem que não foi nem no Rio, nem em São Paulo, mas em algum lugar de Minas Gerais. Um outro boato, que ficou mais popular nos anos 70 e 80, é que Eduardo Gomes teria sido ferido nos testículos durante uma revolta no Forte de Copacabana em 1922, e “brigadeiro é um doce que não leva ovos”, diziam as más línguas.

curiosidade: Nos anos 20, o leite condensado da Nestlé era importado e se chamava Milkmaid, era para ser bebido diluído em água. Por causa do rótulo, que tinha a famosa mulher, começou a ser chamado de “leite da moça”. Nos anos 30, com a fabricação no Brasil, a Nestlé rebatizou como “leite condensado marca moça”, e posteriormente virou leite moça.

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minha cozinha é arqueológica

Parece até filme do Woody Allen, mas saiu na National Geographic. No vilarejo de Chajul, na Guatemala, um homem começou a reformar a sua cozinha. Ao tirar a camada de gesso da parede, encontrou um mural maia! Pinturas que não viam a luz do sol há séculos e séculos. Pelas primeiras análises, e apesar de o mural estar bastante danificado, as pinturas parecem ser autênticas. O interessante é que elas misturam elementos maias e espanhóis. Segundo o arqueólogo  Jarosław Źrałka, que foi até a cozinha em Chajul, algumas figuras parecem segurar corações humanos. Imagina descobrir que sua cozinha é um sítio arqueológico! Mas não deve ser nada legal ir pegar um copo d’água no meio da noite e dar de cara com uma figura carregando um coração. Por enquanto, quem fez o mural e o que ele significa é um grande mistério!

porco mau ou nossas impurezas

“Uma terra onde corre leite e mel”. Essa é a descrição da Terra prometida aos hebreus, mas que se interpretada ao pé da letra, é a fábrica de chocolates do Willy Wonka. Segundo a Bíblia, depois da saída do Egito, os hebreus erraram por 40 anos no Sinai, na aridez do deserto, então a Terra prometida era o antideserto, um lugar onde a água era abundante, que irrigava os pastos para os animais, e estes forneciam leite aos homens. E com pastos verdes e vivos, flores eram visitadas por abelhas que fabricavam mel aos homens. Para um povo nômade como os hebreus, o leite era seu alimento básico e o mel era o açúcar, o que tornava a vida mais doce, menos difícil.

É interessante como a Bíblia e outros livros sagrados ora são interpretados literalmente, totalmente ao pé da letra, e, em outros momentos, têm uma leitura bem flexível. O mesmo acontece com as regras de alimentação segundo os livros sagrados. Por que a carne de porco é proibida mas o caranguejo é liberado, se ambos fogem das regras anunciadas por Moisés? Na Bíblia, a regra é clara, o híbrido é impuro. E vem tudo do Gêneses. Se Deus separou a luz das trevas e o céu do mar, então cada animal deve se locomover e viver no ambiente ao qual foi designado. Os animais do mar devem ter escamas e barbatanas para nadar, os terrestres devem ter patas para andar e as aves devem voar. Logo, siris, camarões, lagostas e semelhantes são impuros porque não têm escamas nem barbatanas, e o caranguejo ainda caminha na terra! Os avestruzes, os cisnes e marrecos também são impuros, pois são aves, mas passam a maior parte do tempo na terra e na água. Os répteis rastejantes nem pensar! São malditos desde que a cobra conduziu o homem à desobediência: “Porque fizestes isso, és maldita entre todos os animais e todas as feras selvagens! Caminharás sobre o teu ventre e comerás poeira todos os dias de tua vida”. Os que têm patas e mesmo assim rastejam a barriga também são considerados impuros, como ratos, lagartos, tartarugas e tatus.

O híbrido é realmente proibido na Bíblia. Qualquer misturinha ou invasão de categoria é considerado impuro. ”Não cozirás o cabrito no leite de sua mãe”. Ou seja, é quase um incesto. Quem come um alimento impuro está ingerindo o Mal, o não natural. Mas por que o porco ainda é visto como o mais impuro das carnes de corte e outros animais também considerados impuros são consumidos hoje me dia? Bom, para dizer a verdade, não há uma explicação totalmente satisfatória, mas a questão é que o porco foi se tornando o vilão ao longo dos séculos, justamente por causa da passagem que diz que os animais de terra devem ter o “casco fendido, partido em duas unhas” e ruminar. O porco tem o casco fendido, mas não rumina, tem dieta onívora (só por ser duas coisas já o tornaria impuro), e os animais puros são exclusivamente herbívoros. “A todas as feras, a todas as aves do céu, a tudo o que rasteja sobre a terra, a tudo que é animado de vida, eu dou como alimento toda a relva verde”. Mas por que destacar o formato de casco?

Os hebreus não conheciam todos os animais, principalmente os selvagens, e é difícil observar a ruminação de longe (a lebre é erradamente classificada como ruminante), então o jeito foi observar os animais mais próximos deles. Chegaram a conclusão de que um animal sem garras é impossibilitado de agarrar sua presa, logo… É interessante que todas estas regras alimentares estão baseadas no Gênesis, e a ideia de pureza se aplica em outros aspectos. Por exemplo, uma lavoura não pode ter mais de uma cultura, uma roupa não pode ter dois tipos de tecido, um hebreu não pode ser casar com alguém não hebreu etc.

Passados séculos e séculos, hoje, muitos judeus comem animais “impuros” e até carne de porco. Cristãos de todo o mundo vestem roupas de algodão com poliéster, casam-se com pessoas de outra religião e não fazem mais oferendas nem sacrifícios a Deus. Se nos tornamos mais flexíveis quanto a vários pontos da Bíblia, por que somos arbitrários e usamos a Bíblia para condenar os outros?

torta frangipane de castanha do pará

Ontem eu não estava muito bem. Meio triste, irritado, sensível e com ódio no coração (hahaha). Não, este não vai ser um momento “querido diário”, mas as coisas ficaram mais alegrinhas quando eu decidi fazer uma torta. Coincidentemente, quando a decisão foi tomada, meu iPod começou a tocar Where Do You Go to My Lovely, que me lembra Viagem à Darjeeling, dirigido pelo Wes Andersen, que para mim é sempre sinônimo de confort movie. Agora, a história da torta é outra coisa.

Tinha visto uma torta frangipane de frutas vermelhas no MasterChef Australia e ela não saiu da minha cabeça. Então tinha que ser ela, mas sabia que precisava fazer algumas modificações, só não contava que seriam muitas. Acabou virando uma Torta Frangipane de Castanha do Pará com Geleia de Cassis e Morangos. E eu afirmo que é a melhor torta que já fiz na vida! Capaz de curar qualquer dia ruim.

O nome é pomposo, mas não requer grandes habilidades, e dá para fazer inúmeras variações dela! O frangipane costuma ser feito com amêndoa, mas não encontrei amêndoa sem pele, então substituí por castanha do pará. Minha ideia era usar morangos e amoras com geleia de frutas vermelhas, mas não encontrei amoras (quando eu não quero, encontrou aos montes. Murphy me ama) e só tinha geléia de cassis, que nunca tinha experimentado.

Torta Frangipane de Castanha do Pará com Geleia de Cassis e Morangos

> Massa

Comece por ela porque ela vai precisar descansar por 1 hora, enquanto isso, você faz o frangipane. Tenho certa preguiça de fazer massa, então procurei por uma bem simples e fácil, feita no processador, sem ter que trabalhar com as mãos. A eleita é esta, do I Could Kill For Desserts, e aprovadíssima.

100 g. de manteiga (sem sal) gelada; 180 g. de farinha de trigo; 1/2 colher (sopa) de açúcar; 1/2 colher (chá) de sal; 60 ml de água gelada

No processador, misture a farinha com o sal e o açúcar. Adicione a manteiga cortada em pedaços e pulse em staccato até a farinha começar a ganhar consistência de farofa.

Pulsando de 4 em 4 segundos, adicione a água aos poucos até a massa virar uma bola. Retire do processador, forme um disco e embrulhe em papel manteiga e depois no plástico filme. Leve à geladeira por 1 hora.

> Frangipane

Tradicionalmente é feito com farinha de amêndoa, mas pode-se substituir por castanha de caju, do pará, avelã e até usar coco fresco. Alguns mercados vendem uma farinha já pronta, mas pode-se perfeitamente triturar, e eu até prefiro sentir os pedacinhos. Depois de pronto, pode ser guardado na geladeira por até 3 dias (se estiver muito duro, deixar em temperatura ambiente e bater um pouco).

200 g. de castanha do pará triturada; 200 g. de açúcar; 200 g. de manteiga em temperatura ambiente (24º C); 200 g. de ovos (cerca de 4); 80 g. de farinha de trigo; 20 g. de rum/licor de amêndoa/conhaque ou whisky

Bater o açúcar com a manteiga até virar um creme quase branco. Adicionar a castanha do pará e incorporar bem. Acrescentar um ovo de cada vez, batendo bem após cada adição.

Adicionar a bebida (no meu caso, whisky) e bater apenas para incorporar. Desligue a batedeira e incorpore a farinha de trigo com a ajuda de um pão duro ou espátula. Certifique-se de que o creme está homogeneizado. O ponto é quando não cai do pão duro.

> Montagem

Depois de preaquecer o forno a 180º C, asse somente a massa por 8 minutos. Não esqueça de fazer furos com o garfo. Use uma forma redonda de 25 cm de diâmetro (fundo falso), dessas de torta de maçã que fica esfriando na janela. Este tamanho é ideal para a massa.

Depois de pré-assar a massa, coloque a geleia de cassis (280 g.). Para dar uma leve diluída, misturei um pouco de vinho do porto. Disponha os morangos (menos de uma caixa) e depois cubra com o frangipane. Leve ao forno novamente por cerca de 25-30 minutos, ou até o frangipane ficar lindamente dourado. Deixe esfriar, desenforme e sirva com chantilly ou sorvete de creme (porque a vida fica melhor assim).

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A história do Frangipane é curiosa e começa no século XVI, com um marquês italiano que vivia na França chamado Muzio Frangipani. Na época, o beija-mão era um cumprimento comum, mas Frangipani não gostava muito do cheiro das mãos que beijava. Então ele criou um perfume para luvas com um cheiro amendoado. Foi um grande sucesso e uma coqueluche. Os confeiteiros resolveram introduzir este perfume em suas criações e roubaram o sobrenome do marquês para o creme de amêndoas.

filé de brontossauro

O homem nunca conviveu com dinossauros, isso só aconteceu nos episódios do Flintstones, da Família Dinossauro, do Elo Perdido, nos filmes do Parque dos Dinossauros… enfim, só na ficção. Mas o Homem das Cavernas caçou animais tão grandes quanto, como o mamute. O interessante, é que o Homem das Cavernas como imaginamos só entrou para o nosso imaginário depois de um salto evolutivo, e tem a ver com alimentação.

Sabe-se muito e, ao mesmo tempo, muito pouco sobre nossos antepassados de milhões de anos. O esqueleto bípede mais antigo que se tem notícia tem de 3,8 a 4 milhões de anos e foi justamente neste estágio da evolução, talvez um pouco mais a frente, que o homem, os famosos australopiteco e Homo habilis, na áfrica oriental começaram a caçar. Isso, há cerca de 2,5 a 1,5 milhão de anos. Até então, a alimentação era exclusivamente vegetariana e o australopiteco foi obrigado a encontrar outras fontes de alimento depois de migrar para áreas onde a quantidade de alimento vegetariano era menor. Se ele se tornou bípede, isso facilitou a caça, porém ele realmente caçava ou aproveitava os restos deixados por animais? A resposta ninguém sabe ao certo, mas pelo que tudo indica, as duas coisas. Caçar exigia muito do homem, além de arriscado. Um mamute, ou um mesmo um animal de porte menor, podia matar com um só movimento. E o homem, mesmo evoluído, ainda era bem primitivo. Então o homem aproveitava restos, mas quando a coisa apertava, o jeito era enfrentar o bicho.

Como disse no outro parágrafo, muito se sabe e também pouco se sabe. São teorias que fazem sentido, mas qualquer descoberta, estudo ou análise pode alterar tudo. No último sábado, foi noticiado a descoberta de fósseis na Ucrânia mostra que o Homo sapiens era uma criatura vaidosa e canibal. Além de adornos feitos de ossos e presas, havia um crânio rachado exatamente como eles rachavam os crânios de animais para a retirada do miolo. Tal prática devia ter uma conotação “religiosa”, como a de tribos que comem partes de adversários mortos para mostrar coragem e poder. Por enquanto, é apenas uma suposição. Mas o que isso tem a ver com a História da Alimentação? Bom, se a carne tem papel de destaque hoje – vamos lembrar que em quase todas as culturas, a carne sempre foi a estrela em cerimônias, festas e oferendas -, é importante saber quando, como e por que o homem se tornou onívoro. E não pense que paramos de evoluir!

que comam croissants!

Historiadores dizem que Maria Antonieta nunca disse tal coisa ao ser alertada que o povo não tinha pão para comer. Aliás, muita história atribuida a ela também é fantasiosa. No filme de Sofia Coppola, Maria Antonieta está sempre rodeada de macarons, as mais finas patisseries e muito champagne, porém, na vida real, a jovem rainha só comia frango cozido ou assado e croissants, bebia água e café, como escreveu sua dama de companhia Madame Campan.

Maria Antonieta foi enviada à França aos 14 anos para se casar com Luis Augusto, futuro Luis XVI, parar encerrar de vez as oscilações na relação entre os dois países. Os rígidos protocolos de Versalhes (tão diferente de sua Viena), a pouca idade, a falta de interesse de Luís e a pressão de gerar um herdeiro eram uma constante preocupação para Maria Antonieta. Para ela, fazer as refeições em público – o povo se arrumava só para entrar no palácio e ver o casal almoçar ou jantar – era tão desagradável que nem tirava as luvas, muito menos beliscava uma uva, o que reforçava sua imagem de antipática. Chamavam-na de “A Austríaca”.

E onde o croissant entra na história? Sentindo-se deslocada e com saudade de Viena, Maria Antonieta comia croissant, ou viennoiserie, como era chamado, uma invenção austríaca e que ela introduziu na França. Era seu confort food.

Uma das origens do croissant remota ao ano de 1683, quando os otomanos tentaram um ataque durante a madrugada em Viena. Os padeiros, trabalhadores da madrugada, ouviram os soldados otomanos e deram o sinal de alerta, evitando o ataque. Para comemorar, fizeram um folhado em forma de lua crescente (daí o nome), que remete à lua presente na bandeira do Império Otomano. A outra história diz que um vienense morador de Constantinopla abriu um café e servia a bebida com o croissant, mas esta versão não tem graça.

coelhinho da páscoa, o que trazes pra mim?

Já passei da idade de ganhar ovo de páscoa, na verdade, nunca gostei muito. Lembro que minha mãe dava um para mim e outro para minha irmã. Claro que era uma alegria abrir e começar a comer, mas a gente comia alguns pedaços e o que sobrava ia para o esquecimento na geladeira, ao lado do coelho decapitado e o papai noel decepado. Particularmente, também não gosto de dar ovos, prefiro um bombom ou um chocolate mais especial, lindamente embalado. No final, dá o mesmo preço, só que, obviamente, a quantidade é menor.

O ovo de páscoa vem de muito antes do tempo de Jesus. Tribos pagãs celebravam a deusa da primavera Eostre no final de março, depois que saíam de um tenebroso inverno – até hoje os eurpeus comemoram a chegada da primavera como um renascimento, ficam mais bem humorados e dispostos. Acredita-se que o nome Eostre virou easter (inglês) e ostern (alemão), que significam Páscoa. Os Judeus também já comemoravam a Páscoa, mas para lembrar o fim da escravidão no Egito. Para os cristãos, a palavra Páscoa vem do hebraico Pessach, que significa passagem, ou o renascimento de Cristo. Cristãos e Judeus comemoravam a Páscoa no mesmo dia, até que o imperador romano Constantino resolveu mudar as coisas, mas basta ler O Código Da Vinci para saber o resto.

O ovo em si veio muito depois. Em muitas culturas, o ovo era um alimento quase sagrado. Chineses, gregos, persas, egípcios e romanos pintavam e trocavam ovos cozidos ou ocos na chegada da primavera. Acredita-se que este costume foi levado para o ocidente por missionários e cruzados.  Mas os de chocolate surgiram só depois que os espanhóis conheceram o chocolate com os maias e difundiram pela Europa, um luxo dos luxos, ovos de galinha ocos e recheados. Mas e o coelho? Bom, o coelho também tem origem com a deusa Eostre.

A deusa da primavera era retratada segurando um ovo e observando uma lebre saltitante – mulher + ovo + coelho = fertilidade. Em algumas versões, a lebre era um pássaro, e mesmo depois da transformação, fazia ninho e colocava ovos. Numa transformação à la telefone sem fio, a lebre virou coelho, mas em alguns países, quem faz este papel são cotovias, cegonhas e galos. No Brasil, estes costumes vieram com os imigrantes.

todo mundo come

O ser humano é sexo e estômago, mas como bem explicou Câmara Cascudo em A História da Alimentação Brasileira, o homem é mais estômago que sexo. Primeiro, porque ele precisa ser alimentado nas primeiras 24 horas de vida, enquanto o despertar sexual só surge na adolescência, e segundo, porque o homem precisa comer diariamente para sobreviver e pode levar uma vida celibatária sem problemas. Daí vem a pergunta: comer para viver ou viver para comer? Ou as duas coisas?

A nossa relação com a comida não é meramente nutricional: a cultura, religião geografia, história, tudo isso influencia nossa alimentação. Logo, falar sobre alimentação também é falar de história e gente, e é exatamente isso que quero discutir atravez deste blog.

O Brasil é um excelente exemplo. Os europeus usavam especiarias para conservar carnes e outros alimentos, ou disfarçar o cheiro de podre, mas quando os turcos invadiram Constantinopla e bloquearam a passagem por continente, a saída foi se aventurar no mar e contornar a África, rota descoberta por Vasco da Gama. Nesse momento entra Pedro Álvares Cabral e seus 13 navios. Alguns dizem que ele chegou nas terras daqui por acidente, outros dizem que foi intencional, pois vários navegadores já haviam avistado o Brasil e o rei Manuel I mandou Cabral tomar posse de vez. Como foi de fato, ninguém tem certeza, mas é mais interessante acreditar que, no fundo, o Brasil foi “descoberto” por causa de especiarias.

No final da história, Cabral voltou para Portugal com um punhado de pimentinha, foi chamado de fracassado e depois esquecido, assim como o Brasil ficou por um século. Botânicos dizem que o Brasil também tinha suas ervas e especiarias, que foram tão exploradas e usadas, mas não cultivadas, que foram extintas.

E é assim que o mundo gira, porque todo mundo come. Na Índia não comem carne bovina, mas comem tudo com curry. Na China, come-se tudo que tem quatro pés, menos cadeira e mesa. Por trás de cada costume, prato e ingrediente, há uma história. E esta história fica mais interessante ainda quando se sabe que grande parte dos pratos que comemos hoje surgiram de erros e improvisos.

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